A UNE somos nós, mas por quanto tempo seremos capazes de continuar na UNE?
Texto coletivo da Juventude Socialista do PDT após o 60º CONUNE
Esse texto se propõe a avaliar de forma qualificada a participação da JS e seu braço estudantil no 60º Congresso da União Nacional dos Estudantes, a UNE, realizado em Goiânia, entre os dias 16 a 20 do presente mês. A JS, representada pelo movimento Reinventar, retorna a UNE no ano de 2019, se colocando na posição de ocupar 1 cadeira na executiva da entidade e 2 cadeiras na direção ampliada. Esse número representa um resultado significativo em um momento de reativação das estruturas do ME trabalhista. Apesar do momento de grande relevância do trabalhismo a partir da campanha eleitoral de Ciro Gomes, ainda representava uma parcela diminuída frente ao que já foi a participação trabalhista na entidade em décadas anteriores. Essa posição não representa um fracasso, mas sim a representação coerente com o papel diminuto do partido e do trabalhismo na sociedade atual. Influenciar a escolha da direção da maior entidade social da América latina como um braço partidário de um PDT nacional, de grande base de votos e representação popular é possível, o mesmo não pode se dizer ao se disputar enquanto um movimento de cooperação partidário de um PDT regionalmente fragmentado, com 28 deputados (inclusive com vários atuando somente eleitoralmente na legenda, como os resultados posteriores nos mostram) e esvaziado em suas bases populares.
A escolha por apresentar a plataforma do socialismo moreno através do movimento reinventar em si já apresenta uma solução não somente ao cenário acima, mas a crise generalizada das legendas e dos partidos como um todo. O reinventar se coloca enquanto uma plataforma nacionalista, socialista, progressista e, talvez o mais importante, suprapartidária (apesar de ser naturalmente dirigida pela JS em suas instâncias). Essa escolha parece ser acertada, seguindo o exemplo de outras forças dentro do ME, e permite a JS atuar com dinamismo e amplitude em suas articulações políticas, assim como atuar com uma identidade visual, programática e de ação a mais.
A partir desse momento, o reinventar e a JS apresentaram resultados semelhantes ou de aumento de suas bancadas, apesar do colapso das bancadas do partido em quase todas as instâncias eleitorais, um período conturbado de pandemia, uma eleição de 22 também desafiadora para os setores à esquerda do partido e níveis variados de apoio por parte do partido e suas representações a essa participação.
Não se atendo somente a resultados numéricos, a presença trabalhista na entidade, assim como as entidades relacionadas como UBES, ANPG e FENED, foi essencial para pautar as demandas do campo nacionalista popular na entidade. Reconhecendo seu papel enquanto força menor da majoritária, os dirigentes da JS, ocupando tradicionalmente a 2º vice-presidência da entidade e as diretorias de esporte e meio ambiente, conseguiram pautar pautas em defesa da soberania nacional, combate a pandemia, valorização do meio ambiente e do papel da educação na superação da crise climática. Se destaca também o papel em atuar como contraponto aos demais setores da entidade, conquistando, por exemplo, a independência da UNE no 1º turno das eleições de 22, em claro apoio a linha política do partido.
Terminada essa contextualização, destaco algumas questões para o trabalhismo na UNE:
Qual a função do ME para a JS e o reinventar?
Precisamos entender o papel que o ME ocupa para uma organização como a JS. Não podemos nos enganar ao acreditar que, ao menos no curto prazo, a participação trabalhista tem as condições de alterar profundamente a estrutura da UNE, isso seria uma aventura que necessitaria de um planejamento estratégico, financeiro e operativo de longa duração.
O papel dessa frente de luta é, no entanto, fundamental na medida que se efetua como um dos principais canais para a renovação de quadros de uma juventude militante, seja pela entrada de secundaristas ou universitários. É através do ME que a maioria dos jovens com desejo de se engajar politicamente acessam as ideologias e movimentos, em especial na esquerda brasileira. O Movimento Estudantil historicamente sempre foi uma frente para a entrada da juventude na política e a sua formação politica, operacional, de disciplina e a formação de novas lideranças.
Esse papel do ME enquanto vetor de formação e aproximação ideológica é claro ao perceber quantos quadros, partidários e da política em geral, vieram das bases estudantis. Inclusive no PDT, em que as gerações do ME compõem hoje diversos espaços federais, estaduais e municipais.
Como a JS tem possibilitado sua participação nas instâncias do ME?
Participar em todo espaço requer custos, e nas entidades estudantis isso não é diferente. Organizar eleições, girar militantes, definir prioridades, imprimir materiais, contratar transportes, alojamentos, água, comida e muitos outros elementos são custos materiais e humanos do processo. De forma geral, existem três principais abordagens em relação a suprir esses custos: autofinanciamento (aonde os próprios militantes e/ou dirigentes arcam com os custos), utilização de estrutura própria da organização (uso de estruturas organizadas e planejadas de captação como venda de jornais e objetos ou então uso do lucro gerado por investimentos e empresas controladas pela organização) e o uso dos recursos partidários (doações de parlamentares, partidos e fundações, disponibilização de recursos via contatos políticos e negociação de favores)
Por norma, a JS baseia suas arrecadações na terceira fonte, utilizando a primeira como emergência quando essa inevitavelmente falha de maneira espetacular. O resultado disso é que a presença da organização acaba sempre vinculada a uma permanente expectativa de colaboração, constantemente frustrada pelo perfil partidário e de nossas lideranças. Isso dificulta realizar um pensamento verdadeiramente estratégico de ocupação dos espaços e de disputa organizada pela hegemonia das organizações estudantis.
Não se trata aqui a uma crítica diretamente a JS ou suas decisões, até por acreditar que seus dirigentes estão fazendo o melhor possível dentro dessa mentalidade, mas principalmente a uma cultura política especialmente negativa e onipresente dentro do Trabalhismo Brasileiro, a dependência.
Qual o problema de se depender do partido?
A JS, assim como todos os movimentos do PDT e adjacências, se define enquanto um movimento de cooperação partidária. Essa estrutura sugere uma intensa colaboração entre suas estruturas e aquelas do PDT, mas, na prática, a cultura politica prevalecente é a da dependência direta da estrutura partidária. Isso em si não seria problema caso a conjuntura fosse favorável. Diversas juventudes políticas se organizam como braços diretos de seus movimentos, seja no PT, PSOL, PSB ou tantos outros.
No entanto, a conjuntura do trabalhismo brasileiro não é favorável a esse arranjo. Entre elementos como a diminuição das bancadas do PDT em todos os níveis, o foco na cláusula de barreira, a necessidade de contemplar elites locais, o desarranjo entre bancadas e partido, os quase 30% do fundo devolvido como multa por falhas burocráticas, 5% obrigatórios para o movimento de mulheres e tantos outros, se torna inviável para o partido sustentar todas suas frentes.
Não prefiro ser parede do que pedra
Como colocado acima, acredita-se que os dirigentes da JS fazem o melhor com as cartas que lhe foram dadas, mas a questão aqui é o efeito institucional da atual situação. A dependência não opera somente financeiramente, mas também nos espaços administrativos e políticos. A divisão entre um campo operacional cada vez mais exausto, e um campo que age no sentido de deslegitimar a organização e suas iniciativas em prol de uma defesa puramente panfletária expõe como a dificuldade para organizar novas estruturas sem a expressa autorização do politburo trabalhista afeta negativamente a organização.
Não me parece particularmente sustentável operar com um corpo cada vez menor de dirigentes, mais exaustos, mais endividados financeiramente ao longo de ao menos 6 anos de atuação. Assim como não me parece sustentável continuar a operar com quebras de bancadas inteiras, diminuindo a capacidade de agitação e influência nos espaços estudantis. Nessa situação, se torna obrigatório pensar em soluções e alternativas para superar essa situação.
Como resolver a questão política da organização, garantindo sua continuidade no ME e fora dele? E como essa solução pode se tornar um motor para solucionar a dependência financeira, estrutural e política da juventude legítima do trabalhismo em relação ao partido? E como tudo isso pode se transformar em um plano estratégico para ocupação das entidades estudantis de base, nacionais e também das ruas e instrumentos políticos de juventude outros?
O que fazer?
não cabe indicar que o caminho é o ideal, até pela legitimidade para isso. Mas o interesse aqui é oferecer uma proposta, gerar uma discussão entre os quadros da JS e Reinventar, capaz de ser construtiva para a construção e implantação de um consenso, uma síntese.
Precisamos criar condições para que a JS e o Reinventar gradualmente passem a operar com a segunda forma de financiamento destacada acima: a utilização de uma estrutura própria para suas necessidades políticas. Óbvio que isso não é fácil nem rápido de ser implementado, mas essa mudança se constrói como necessária para a continuidade de um projeto jovem, trabalhista de transformação socialista da realidade brasileira.
É preciso profissionalizar a JS e o Reinventar, oficializando suas estruturas jurídicas, reformando seus estatutos e linhas de ação e aumentando seus quadros burocráticos para serem agentes ativos e interessados desse processo de transformação. Aproveitar elementos como a não existência de um estatuto oficializado juridicamente para realizar mudanças dinâmicas na organização, para só então, com as condições de sucesso estabelecidas, passar a criar estruturas rígidas de atuação. Criar CNPJs para a JS e Reinventar, ter um órgão de captação de recursos e execução de projetos, pensar estratégias de venda e coleta de recursos e, principalmente, de investimento desses recursos, ao menos inicialmente, na geração de lucros para a construção de um colchão financeiro mínimo para a organização.
A partir desse momento, teremos a independência para agir como um verdadeiro órgão de cooperação, apresentando um plano sólido de evolução e aplicação dos recursos humanos e financeiros para conquistar apoio de quadros políticos e eleitorais para serem parceiros nesse processo, acelerando os investimentos necessários. Se aproximar da mesa das figuras que hoje apresentam dificuldades para auxiliar os processos da JS e do Reinventar não mais de uma posição de cobrança, mas de visão de um retorno esperado com uma entidade com capacidade de se desenvolver de forma autóctone.
Essa proposta apresenta um caminho para garantir que possamos continuar na UNE, e em tantos outros espaços. Não preciso que seja a única, mas acredito que coletivamente precisamos tomar medidas drásticas e enérgicas para que alguma solução seja adotada, com o temor de entrarmos em uma espiral negativa que não somente não cumpra o papel da juventude de impulsionadora do trabalhismo e seu partido, mas que ameace a existência efetiva desta.
